quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um poema para o sempre gente boa Leandro Gomes



O poeta do vale



Por Fábio Machado



Um menino anda debaixo da luz da lua branca na noite estrelada.
Junto dele um grande cansaço de mais um dia de trabalho.
a infância o atormenta:
não é hora de brincar?
não é hora de sonhar?
A rotina entra na história e avisa: "não, o menino tem que trabalhar,
trabalhar, trabalhar, trabalhar..."

No alto do morro, porém tinha uma curva e atrás dela uma surpresa
rápida como estrela cadente veio ao seu encontro.
Com sorriso uma menina linda
linda... linda... linda...
O moleque questionou: quem é você tão bela?
Ela sorriu... e disse: serei sua guia... te levarei para longe.
O menino-poeta sorriu dizendo Não vos preocupe... sou feliz aqui...
tenho casa
tenho trabalho
tenhos os morros... tenho vida... tenho pastel da mamãe
sou feliz aqui....

A linda, porém exclamou: você irá para longe e eu irei com você.

Na minha casa, tomei banho, briguei com os pernilongos
acariciei minha mãe, dormi.

Acordei!

Domingo pela manhã. Oba, missa!

O Frei elegante, na hora da comunhão olhou com carinho para mim
e ao comungar Jesus deu saudade de minha terra... dos meus morros...
da minha vida... da minha história... Mas ainda estou aqui!

O que há comigo?

Almoço!
Partilha!
Futebol!

Os anos passaram, a luz elétrica substituiu o aconchego da luz da lua.
Os hormônios saltaram sobre a inocência, que resistiu com muita fé
e naquela curva que um dia vi uma bela, a surpesa me encontrou.
Não mais uma linda mulher, mas um frei ofegante com uma carta na mão!

Léo!
Léo!
Léo!

Que foi, estimado frei? Perguntou o poeta!
Passastes no vestibular para a Faculdade na longínqua Belo Horizonte,
Se apresse, menino, amanhã estará rumo a capital. Serás sociólogo!

Adeus, mainha!
Adeus, cama, pastel, morro, igreja, feira...
Dentro de minha calça jeans surrada com um perfume forte,
tento dormir rumo ao futuro. Era noite de lua cheia
naquela curva perto da cidadezinha histórica.

Sinto uma presença forte ao meu lado, tive medo, arrepiei,
Pensei ai, Jesus... que me destes?
Com coragem relutante olho para o lado e vejo a mesma menina linda da infância...
porém com olhar terno de mãe.

Quem es tu? Indaguei!

Antes da resposta completei: por que veio até a mim?

"Olhe para as montanhas, Léo! Contemple as estrelas... veja aquela casinha ao longe
Fumaça na chaminé. Consegue enxergar?"
Sim, eu consigo, respondi.

"Me chamo Maria, te acompanho desde o nascimento e o acompanharei até a Eternidade.
Tenho uma missão: cuidar de você, fazer você feliz.
Tens um dom precioso, o da poesia, és poeta!
Consegues ver vida em meio a noite.

Conhecerás cidades, culturas, povos,
Amarás um só Deus. Casará e terás filhos.
Amigos sempre tereis.
Mas a poesia Léo, é assim, é a capacidade de ver
numa noite estrelada
uma casa ao longe com fumaça na chaminé.
São detalhes da vida, que não passarão despercebidos a você.

És poeta!"

Não sei por que adormeci.

Com sol forte consegui ler a placa
Seja bem vindo a Belo Horizonte
Ao descer do ônibus a lembrança da casinha na noite estrelada me perseguia.
Ouvi carros,
choro de bebê,
cheiro de salgadinho
perfume de mulher

Respirei fundo e senti a vida daquela capital...
dentro do meu coração
uma batida mais forte
e a certeza: a poesia começou.